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Emissão no Polo Petroquímico pode ser 17 vezes maior do que o registrado

Emissão no Polo Petroquímico pode  ser 17 vezes maior do que o registrado
Estudos foram desenvolvidos nas divisas entre Mauá, S.André e S.Paulo. Foto: Arquivo

Pesquisadores do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e da Faculdade de Medicina do ABC (FMABC) conduziram estudo que indica que a emissão de material particulado no Polo Petroquímico de Capuava, em Mauá, pode ser 17 vezes maior do que o registrado. O estudo foi elaborado para atender demanda da Promotoria de Justiça do Meio Ambiente de Santo André, do Ministério Público do Estado de São Paulo.

Sob o título “Análise do impacto das emissões aéreas do Polo Petroquímico de Capuava”, o trabalho reúne cinco estudos desenvolvidos na área de divisa entre São Paulo, Santo André e Mauá, onde está instalado o Polo Petroquímico de Capuava.

O projeto coordenado pela professora de Endocrinologia da FMABC, Maria Angela Zaccarelli Marino, e pelo professor titular do departamento de Patologia da FMUSP e diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, Paulo Hilário Saldiva, teve o resumo executivo entregue ao promotor de justiça, José Luiz Saikali, juntamente com cópia do trabalho completo, que totaliza mais de 200 páginas.

Entre os principais resultados, os pesquisadores encontraram inconsistências nos relatórios encaminhados por via judicial pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e pelas empresas do Polo Petroquímico de Capuava a pedido do Ministério Público. A conclusão é de que a emissão de material particulado no local seja até 17 vezes maior do que o registrado.

Também foi constatado na região aumento gradual na concentração de metais pesados, como níquel e cobre, que potencializam o risco de câncer , fato inversamente proporcional aos achados em outras regiões do Estado, onde os níveis dessas substâncias têm diminuído ao longo dos anos. Além disso, as medidas de compostos orgânicos na atmosfera, provenientes do Polo e de outras fontes, revelaram risco para o desenvolvimento de tumores acima dos níveis preconizados pela Organização Mundial da Saúde.

Cetesb e Abiquim

Procurada, a Cetesb informou que desconhece a pesquisa em questão. Por nota, a companhia relatou que “para que os resultados sejam comparáveis é necessário que o período de monitoramento seja coincidente, assim como o monitoramento ter sido realizado no mesmo local da estação da Cetesb. Além disso, não temos conhecimento da metodologia utilizada na medição e nem o tipo de equipamento usado nesta pesquisa”.

A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) afirmou, por meio de nota, que não teve acesso ao estudo completo e à metodologia aplicada. “É importante ressaltar que as empresas associadas à Abiquim instaladas no Polo são monitoradas constantemente e operam estritamente dentro dos padrões recomendados e exigidos pelas autoridades pertinentes. Até mesmo para se instalarem nesses polos, as empresas precisam primeiro cumprir com diversas exigências de órgãos reguladores.”

A associação afirma ainda que “por serem fontes estacionárias, as empresas são altamente monitoradas; ao abordar a agenda de qualidade do ar, não se pode deixar de levar em consideração as outras fontes de emissão, neste caso, as móveis (carros, caminhões, motocicletas etc). O Relatório da Qualidade do Ar do Estado de São Paulo, divulgado pela Cetesb, de domínio público, detalha essas fontes e o quanto representam nas diversas regiões monitoradas. Por fim, todas as empresas associadas à Abiquim instaladas no Polo têm sempre atendido às solicitações de informação por parte das autoridades pertinentes”.

Pesquisa

O interesse do Ministério Público do Estado de São Paulo em investigar a poluição do ar na região de Capuava surgiu a partir de pesquisas da médica endocrinologista e professora da Faculdade de Medicina do ABC, Maria Angela Zaccarelli Marino, que há 28 anos estuda o grande número de casos de tireoidite crônica autoimune na região de Capuava. Ao longo dos anos, já são quatro artigos publicados em periódicos científicos internacionais, um deles indicando que a ocorrência de tireoidite na população que vive no entorno do Polo Petroquímico é cinco vezes maior do que em áreas residenciais distantes.

Com base nesses dados, a professora deu início em 1989 à pesquisa com moradores da localidade. Os pacientes estudados foram acompanhados em consultas médicas, exames laboratoriais de sangue com dosagens dos hormônios tireoidianos e ultrassonografia da tireoide. Ao todo, 6.306 homens e mulheres entre 5 e 78 anos foram avaliados.

A quantidade assustadora de casos comprovados de tireoidite na região levou o Ministério Público a instaurar inquérito civil para investigar a relação entre a doença e os níveis de poluição. O Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP, por meio do Dr. Paulo Hilário Saldiva, deu início à análise do impacto das emissões aéreas do Polo Petroquímico de Capuava, considerando o potencial de compostos presentes na poluição do ar como causa de doenças autoimunes.

A região de Capuava, em Santo André, abriga um importante Polo Petroquímico, com capacidade de processamento de 8.500 metros cúbicos de petróleo por dia – o equivalente a 53 mil barris de petróleo. É responsável pela comercialização de cerca de 30% do volume de combustíveis consumido na região da Grande São Paulo – o maior mercado consumidor da América do Sul.

2 Comentarios

  1. Boa tarde. Vou solicitar a pesquisa. Assim que tiver um retorno nós avisamos.

  2. Poderiam disponibilizar essa pesquisa para leitura?

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