Comportamento, Serviços

Antes sinal de desleixo, cabelos brancos ganham status fashion

Elas não querem saber de tintas e assumem os brancos como estilo, moda e fator de empoderamento
Deborah: “é importante que a gente se aproprie do próprio corpo”. Foto: Arquivo pessoal

Foi-se o tempo que cabelos brancos eram sinônimos de falta de vaidade. A consultora de imagem e estilo Mila Codato explica que mesmo entre quem assume os fios brancos, na grande maioria das vezes ainda existe a preocupação com a estética. “A mulher está num momento de retomar seu poder e sua liberdade. Os cabelos entram como um elemento forte de comunicação nesse sentido. Repare que são platinados, prateados, grisalhos, cinzas, brancos, mas em sua maioria das vezes com corte em dia e muito bem cuidados”, pontua. “Uma mulher que se aceita, que se ama não se prende a padrões, ela é mais ela mesma e se gostar e quiser assumir os brancos, estará de acordo com sua personalidade e com certeza seu estilo será bárbaro sendo grisalha”, complementa consultora de imagem e estilo e especialista em acessórios de beleza, Kelly Serrano.

A dentista Deborah Delage, de 54 anos, tomou a decisão de deixar de ser “tingida” para ser natural há cerca de dois anos. “Decidi que não ia esperar pelos 60 anos simbólicos para parar de tingir o cabelo”, relembra. Após anos pintando os cabelos, precisou passar por alguns processos de descolorimento, até para reduzir o impacto visual de quando a tinta fosse saindo dos fios. “Não queria mais ser escrava da tinta, ficar preocupada se as pessoas estavam vendo minhas raízes brancas, desprender tempo e dinheiro nisso”, completa. Deborah passou então a deixar o cabelo crescer e depois de alguns meses cortou as pontas, que já estavam bastante frágeis pelo descolorimento.

Deborah relata que percebe um estranhamento das pessoas que olham para seus cabelos – já totalmente brancos – e que causa alguma confusão com relação a idade, já que os fios, ao menos de costas, remetem à uma mulher mais idosa. “As mulheres falam que queriam ter a minha coragem, é um comentário bastante frequente, mesmo de pessoas estranhas”, explica. A dentista pondera que as mulheres, como um todo, estão sob um jugo muito grande de pressão e opressão para suprir as expectativas estéticas da sociedade. “A mulher deve ser magra e jovem eternamente e o cabelo tingido entra nesse contexto”, define.

“Qualquer mulher, jovem, mais velha, idosa, a gente precisa se liberar de todas as formas de opressão que sofremos. É fácil para mim, talvez, falar, que sou cheia de privilégios, branca, educada, bem remunerada e fazer isso foi uma escolha. Mas é importante que a gente se aproprie do próprio corpo, que a gente lute contra a dominação que a sociedade quer fazer dos nossos corpos, nesse caso estamos falando do cabelo, mas tem tantas outras coisas. Nossas meninas sempre sujeitas à violação de seus corpos por pessoas muito próximas. São todas formas de jugo sobre nós e acho que a gente precisa se apropriar do próprio corpo. É a primeira revolução que podemos fazer para sair desse lugar de submissão em que nos colocaram”, enfatiza.

A consultora Kelly Serrano ressalta que fios brancos é estilo de vida e não modismo. “Precisa ter atitude e paciência. Precisa estar bem consigo mesma pois são muitas as pessoas que não compreenderão e te questionarão da sua decisão, tentando fazê-la desistir”, explica. “Lembro até hoje do dia que ainda adolescente entrei na casa da minha avó e perguntei se ela queria que eu pintasse seu cabelo pois nunca tinha o visto assim e ela me disse: ‘Eu demorei muito tempo para conquistar estar cor, ninguém vai me privar dela agora’”, finaliza.

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