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Crise interrompe avanço na inserção de negros no mercado de trabalho do ABC

O último ciclo de crescimento do país reduziu as diferenças entre negros e brancos no mercado de trabalho do ABC, mas a recente crise econômica interrompeu al­guns avan­ços e ameaça o legado construído, principalmente, de 2004 a 2013.

É o que mostra estudo divulgado ontem (18) com base na Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) e alusivo ao Dia da Consciência Negra, que será comemorado amanhã.

Segundo o estudo, a taxa de desemprego média entre os negros – historicamente maior – aumentou de 12,1% em 2014 para 15,8% no ano passado, enquanto a dos não negros avançou menos, de 10,1% para 11,1%, na mesma comparação.

Com isso, a diferença entre as taxas de desemprego de negros e não negros saltou para 4,7 pontos porcentuais, 3,2 pontos acima da verificada em 2013, a menor da sé­rie histórica da pesquisa (veja gráfico ao lado).

“A desigualdade de cor só melhora quando há crescimento econômico, que permite incorporar mais gente no mercado de trabalho, combinado à adoção de políticas afirmativas, especialmente vol­tadas à educação”, afirmou Alexandre Loloian, da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), que realiza a PED em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Diee­se) e com o Consórcio Intermunicipal.

Não por acaso, a participação dos negros no total de ocupados da região caiu de 30,8% no biênio 2012-13 para 28,8% no seguinte (2014-15). Paralelamente cres­ceu sua fatia no contingente de desempregados, de 34,7% para 35,7% do total.

Loloian explicou que o desemprego cresceu mais entre os negros porque a crise penalizou com mais intensidade a indústria e a construção civil, setores em que a participação desse contingente é maior.

O estudo revela ainda que, embora minimizado nos últimos anos, o legado de desigualdade persiste. Um exemplo é a maior presença dos negros em ocupações de baixa especialização e com menor acesso a direitos trabalhistas. Prova disso é que 24,3% dos negros ocupados são autônomos ou empregados domésticos, contra apenas 18,8% entre os não negros. Da mesma forma, 63,7% dos negros têm empregos com carteira assinada ou estão no setor público, ante 65,4% entre não negros.

Único ponto positivo do es­­­tudo, caiu a distância dos ren­dimentos médios entre os dois grupos na passagem de biênios. Em 2014-15, os negros recebiam o equivalente a 63,3% do auferido pelos não negros, ante 61,7% em 2013-14.

Loloian lembrou, porém, que a remuneração caiu nos dois grupos devido à crise e à inflação elevada, mas foi mais intensa entre os não negros (-3,7%) do que entre os negros (-1,3%). “Não dá nem para comemorar”, afirmou.

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