Destaque, Editorias, Notícias, Saúde e Beleza

Mães de bebês com microcefalia enfrentam rotina exaustiva em busca de tratamento

Nos três estados que mais registraram casos de infecção pelo vírus Zika e de bebês com microcefalia – Bahia, Pernambuco e Paraíba – , diferentes mães estão traçando um mesmo enredo de dúvidas, angústia e invisibilidade. A epidemia que chamou a atenção do mundo todo tem deixado suas principais vítimas na sombra. Donas de uma vida já difícil, mulheres nordestinas agora carregam diariamente seus filhos em busca de tratamento. Amanhã (11) completa um ano desde que o Ministério da Saúde decretou a epidemia como Situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional.

O choro dos bebês ecoa nos corredores dos hospitais e centros de reabilitação.  Os exercícios de fisioterapia parecem um martírio para as crianças, que desde o nascimento são desafiadas a transpor seus limites. “As crianças que nascem com diagnóstico de microcefalia têm alteração do sistema nervoso central que podem afetar o desenvolvimento típico da criança e dificulta que elas tenham aquisições dentro do tempo certinho. Aí o papel da fisioterapia precoce é minimizar essas disfunções”, explica a fisioterapeuta Patrícia Carvalho, do Centro de Reabilitação Irmã Dulce, em Salvador.

Se para os bebês parece um sofrimento, para as mães as terapias representam a esperança de amenizar as sequelas. “Eu acho que o maior medo delas é que eles não sentem, não andem, não falem”, explica a fisioterapeuta Jeime Leal, do Hospital Dom Pedro I, em Campina Grande (PB). Jeime ouve diariamente o desabafo das pacientes. “Às vezes elas chegam aqui, choram, choram, choram e eu não tenho muito o que falar, porque elas já são guerreiras por estarem nessa batalha. Eu sei que elas realmente não estão preocupadas com elas mesmas, nem com o marido, nem com nada, só com a criança. Elas fazem de tudo para não perder nenhuma sessão. Então, acho que isso tem sobrecarregado um pouco elas. Não sei até que ponto, nem até quando elas vão conseguir suportar tudo isso sozinhas.” relata.

Sandra Valongueiro, pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também ressalta a importância de voltar a atenção para as mulheres. “Você imagina o que é passar a gravidez inteira com essa angústia. Essas mulheres precisam de apoio do Estado, da sociedade e das comunidades. Não é vitimizar as mulheres, mas colocá-las nos lugares onde elas devem estar. Se a maternidade no Brasil é tão importante, do ponto de vista simbólico, porque ela não é importante na prática?”, questiona.

Paula Custódio, mãe de Anthony, que nasceu com microcefalia na Bahia. Foto: Imagens/TV Brasil

Foi com silêncio e lágrimas que Paula Custódio reagiu à pergunta: qual é o seu sonho? Paula não revelou com o que sonha, mas contou como sua história mudou depois no nascimento de Anthony, seu primeiro filho. “Quando a gente soube, foi assustador porque eu nunca tinha ouvido falar sobre isso. Não tinham outras pessoas ao meu redor, como eu vejo hoje, que tivessem outras crianças [com microcefalia]. Primeiro, o médico não soube falar o que era. Eles só assustavam, diziam que a criança corria risco de morrer, falavam que ele não ia andar. Foi quando mandaram a gente para um médico aqui em Salvador. Ele me tranquilizou mais, disse que já viu casos piores, então era para curtir o resto da gravidez e esperar nascer”, relembra.

Paula é cuidadora de idosos e mora em Esplanada, a 165 quilômetros de Salvador. No início da gravidez, sentiu dores nas articulações. Fez o teste de sorologia e cinco meses depois do nascimento de Anthony ainda não tinha o resultado do exame. A suspeita de que foi infectada pelo vírus Zika surgiu no último ultrassom, que detectou a microcefalia no bebê. “O meu medo era como ia ser a feição dele, se ia ser bonito. Porque no começo, quando fui olhar na internet, só tinha umas imagens feias”, relata.

O diagnóstico da microcefalia de Anthony foi feito pelo médico do interior, que imediatamente encaminhou o caso para Salvador. Os cuidados com o filho obrigam Paula a se deslocar pelo menos três vezes por semana para a capital, com o carro da prefeitura de sua cidade. Apesar da agenda cheia com a atenção especial ao bebê, Paula tem conseguido conciliar a nova rotina com o trabalho de cuidadora de idosos. E não deixou de sonhar, pelo filho e por ela. “Eu tenho vários sonhos. Só que o principal, fora ele, tem um que eu não quero falar agora”, diz emocionada.

Miriam Araújo percorre três horas até Salvador para que seu filho com microcefalia receba atendimento três vezes por semana. Foto: Imagens/TV Brasil

É na alta madrugada que Miriam de França Araújo se levanta, arruma o bebê, toma café e espera pelo carro da prefeitura na zona rural. O motorista chega por volta de 3h e a leva com seu filho por uma estrada de terra sinuosa e cercada pela vegetação peculiar do sertão do Cariri. Já são 4h quando ela chega ao centro de São José dos Cordeiros e troca de transporte. Embarcada na van da prefeitura, segue para o seu destino final: o Hospital Dom Pedro I, em Campina Grande (PB). A maratona se repete pelo menos três vezes por semana para que seu filho Lucas faça fisioterapia e receba assistência médica.

No caminho, o dia vai nascendo. A chegada ao hospital é sempre por volta de 6h30 – ainda falta meia hora para começar a fisioterapia. Sentada na recepção, enquanto o bebê dorme em seu colo, ela conta sua história. “Olha, a história minha e do Lucas é uma história muito bonita. É uma coisa assim, difícil de contar, tem atropelos. É muito cansativo também. Tem os momentos ruins, os momentos bons. Mas, eu estou lutando junto com ele. Ele está reagindo bem ao tratamento, está valendo a pena. Não estou vindo para cá em vão. Ele está tendo tratamento aqui de vários médicos, graças a Deus: oftalmo, otorrino, depois ele vai começar no fonoaudiólogo”, comemora a mãe.

Com 25 anos, nascida em Serra Branca, interior da Paraíba, mãe de uma menina de 7 anos, Miriam não planejava ter o segundo filho. Estava tomando antinconcepcional, mesmo assim engravidou. Ela e o companheiro não vivem mais juntos. No oitavo mês de gestação, ela teve os sintomas do zika. “Eu fiz meu pré-natal normal. Eu não tive nenhum problema durante a gravidez, só no oitavo mês que eu tive essa zika, fiquei internada e tudo. Se não foi a zika, foi Deus que permitiu que ele nascesse assim”, afirma.

A culpa que Miriam sentia foi aliviada pelo acompanhamento psicológico oferecido pelo hospital. A mãe agora se dedica à rotina de tratamento do filho, principalmente as sessões de fisioterapia. “Ele tinha o corpo todo duro, todo entrevado. Era difícil ele soltar som, o choro dele era como se fosse um choro de miado de gato. E agora está praticamente como uma criança normal: ele chora, diz “mama”. Ele brinca, conversa, ri, ele já me conhece, conhece minha filha. Os momentos bons são esses”, conta.

Como boa parte das mães de bebês com microcefalia, Miriam passa por dificuldades financeiras. A jovem mora com os pais e ganha R$ 233 do Bolsa Família. O ex-companheiro ajuda quando dá. Com o ensino médio completo, Miriam espera logo poder realizar seu sonho: fazer faculdade e conquistar a casa própria. Sorte não está faltando. Em um sorteio de comemoração ao Dia das Mães no hospital, a jovem foi presenteada com uma bolsa de estudos de uma Faculdade de Campina Grande. “Eu escolhi para Letras ou pra Pedagogia. Porque minha psicóloga daqui acha que eu me identifico muito com a pedagogia. O meu sonho é terminar os meus estudos, fazer um bacharelado e ter minha casa própria.” revela.

Deixe seu comentario

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*