Novo ‘Alien’ tem ritmo mais agitado que original, mas perde o clima de mistério | Diário Regional

Novo ‘Alien’ tem ritmo mais agitado que original, mas perde o clima de mistério

12/05/2017 4:07
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Foto: DivulgaçãoQuem compara os 38 anos que separam “Alien, o Oitavo Passageiro”, longa que deu origem à saga de horror espacial, desse novo “Alien: Covenant”, que está em cartaz nos cinemas logo nota que as diferenças vão muito além da carapaça de computação gráfica que agora reveste os monstros intergalácticos.
“Alien” chega às raias da meia-idade mais frenético.

Se em 1979 cerca de 1.100 planos (sequências sem cortes) bastavam para perturbar o público –e os personagens–, o mesmo Ridley Scott que criou a franquia agora precisa de 1.900 (72% a mais), para alcançar um resultado que não necessariamente bate o original.

A crítica cinematográfica cunhou até uma expressão agora surrada para desdenhar da estética acelerada que hoje impera em Hollywood: “ritmo de videoclipe”.

Tome-se por exemplo a cena que abre o filme de 1979: em quase dois minutos, dois únicos e longos planos-sequência dão cabo de criar uma atmosfera de tensão enquanto a câmera vaga lentamente pelos corredores de uma nave espacial, com uma música para lá de soturna.

Em “Covenant” não há paralelo. O diretor Ridley Scott investe mais nas imagens gráficas do que na aura de mistério. Se por um lado a computação permite agora colocar os aliens mais tempo em cena, por outro, o novo filme perde um tanto de clima.

PIROTECNIA E REPETIÇÃO

“Muito da potência de uma imagem vem da duração dela”, diz a montadora Karen Harley (de “Que Horas Ela Volta?” e “Órfãos do Eldorado”). “Mas as novas gerações estão conectadas a muitas telas ao mesmo tempo. Quanto mais mídia se absorve, mais rápido se lê a imagem.”

“Com mais planos num filme,dá-se menos tempo para o espectador pensar. É uma pirotecnia que vem maquiar uma dramaturgia repetitiva”, opina o cineasta Alain Fresnot (“Desmundo”, “Ed Mort”), que costuma editar os próprios filmes que dirige.

Fresnot crê que a tendência dos filmes mais acelerados tenha a ver com influência da estética televisiva e dos games. “Há a ideia de que os públicos hoje são menos pacientes, e que tudo precisa ser dado com intensidade para manter a tensão”, afirma.

André Finotti, montador de longas como “Os Inquilinos” (2009) e “Mundo Cão” (2016), concorda e acrescenta que as novas tecnologias têm dado um empurrão nisso: mais câmeras rendem mais material para a montagem.

“Mas se a ideia é criar mistério, planos mais longos são necessários”, afirma Finotti.
Ele diz que o ponto de virada no ritmo dos longas recua a filmes dos anos 1980, como “Rambo” (1982), o que pode sugerir uma pista: “Alien” hoje é menos uma saga de suspense no espaço e mais uma franquia de ação.

MONSTRO GAY E FÁLICO

Ao estrear, em maio de 1979, “Alien, o Oitavo Passageiro” pairou nos cinemas feito objeto voador não identificado: era uma ficção científica, mas ancorada no horror, diferente das que em geral eram feitas.

O longa arrecadou US$ 105 milhões, levou o Oscar de efeitos especiais, rendeu continuações e cópias genéricas a rodo, e alçou Ridley Scott. Ostentando também “Blade Runner”, “Gladiador” e “Perdido em Marte” no currículo, o diretor de 79 anos talvez seja hoje o cineasta inglês mais importante em atividade.
Boa parte do choque do “Alien” original vem da sua cena mais emblemática: aquela em que um bebê alien salta de dentro do peito do astronauta Kane (John Hurt).

Roteirista do filme, Dan O’ Bannon diz que buscava um subtexto gay para deixar o público masculino desconfortável. A simbologia é clara: é pela boca que o alien se infiltra no corpo de Kane, num “estupro oral homossexual”, como descreveu O’ Bannon em documentário sobre o filme.

O design da criatura, meio artrópode meio humana e com uma cabeça fálica e sem olhos, veio do artista surrealista suíço H. R. Giger (1940-2014). A carga sexual dos rascunhos do monstro teriam encantado Scott –mais um subtexto erótico numa saga que se apoiou fartamente no sexo para embutir o terror.

Faltava quem produzisse o bicho. O italiano Carlo Rambaldi (1925-2012), o mesmo que fez o boneco de “E.T. –O Extraterrestre”, deu vida a esse pesadelo erótico por meio de efeitos em animatrônica.

Magro e com mais de 2 metros de altura, o nigeriano Bolaji Badejo ficou encarregado de vestir a fantasia do monstro e teve até aulas de mímica e tai chi chuan para suavizar seus movimentos. Hoje, o alien é todo computadorizado.

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