Mulheres do ABC denunciam violência obstétrica | Diário Regional

Mulheres do ABC denunciam violência obstétrica

05/04/2014 7:40
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Laura e Elisangela, com as pequenas Mariane e Ester, estão processando os hospitais. Foto: Eberly Laurindo especial para o DRO momento do parto deveria ser o mais feliz da vida de toda mãe. Deveria. Para algumas mulheres – um quarto das brasileiras, segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo – o nascimento do filho virou uma verdadeira história de terror na lembrança. Recusa de anestesia, proibição de acompanhantes (mesmo este sendo um benefício garantido por lei federal desde 2005), xingamentos e humilhações são relatos comuns a todas, que aos poucos, vão perdendo o medo de denunciar e procurar seus direitos. No ABC, ao menos seis mulheres já procuraram advogados para processar hospitais e uma delas, a manicure e moradora de Santo André Elisângela Alberta de Souza, já processa o Hospital da Mulher Maria José dos Santos Stein, do mesmo município.

No início de 2012, Elisangela deu à luz seu segundo filho no Hospital da Mulher. Foi proibida de ser acompanhada pelo marido durante a admissão no hospital, impedida de se movimentar durante o curto trabalho de parto – já que chegou ao hospital quase dando à luz – e sofreu um grande corte na vagina, conhecido como episiotomia, apenas para que os residentes do hospital vissem como se faz o procedimento.

Já foram realizadas duas audiências de conciliação, mas o hospital não apresentou nenhum acordo. O julgamento está marcado para o dia 26 de junho. “Minha expectativa não é nem de ganhar a ação, mas que tudo isso jogue luz nessa questão. Que o judiciário e os gestores se sensibilizem com o que as mulheres passam todos os dias. Quero deixar minha mensagem”, declarou.

A professora Juliana da Silva Santos também deu à luz ao filho no mesmo hospital, em agosto de 2012. Assim como aconteceu com Elisangela, Juliana foi impedida de escolher em que posição preferia ter o filho, foi obrigada a tomar ocitocina na veia (hormônio sintético para acelerar as contrações), a se submeter a uma episiotomia e ainda teve enfermeiras empurrando sua barriga para apressar o nascimento. “Tentei argumentar com todas as intervenções, mas fui coagida pela equipe. Além disso, no momento do parto, ao menos 14 pessoas estavam na sala”, afirmou. Juliana está avaliando com advogados a possibilidade de processar o hospital.

A culinarista Laura Vitória Alonso, também moradora de Santo André, passou por toda a violência no Hospital Santa Helena, em São Bernardo. Durante o parto, ficou sozinha por mais de sete horas, impedida de se alimentar e até de beber água; contou com a presença do marido apenas no momento do nascimento da filha e não foi anestesiada, mesmo pedindo inúmeras vezes. Sofreu violências físicas e verbais por parte da equipe de enfermagem, além de ter sofrido a episiotomia e sutura do corte sem anestesia. Aguardou mais de sete horas para ver e amamentar a filha. “Sinto mais pelo que ela passou. Posso ter outro parto, ela não vai nascer de novo”, declarou, emocionada.Laura está iniciando processo contra o hospital.

Mudanças

A superintendente do Hospital da Mulher, Rosa Maria Pinto Aguiar, afirmou que o processo está sendo tratado pelo departamento jurídico e que não comentaria, mas destacou que desde que assumiu a gestão do equipamento, no início de 2013, tem trabalhado com a equipe para implementar mudanças que visem à humanização do atendimento das gestantes e o combate às práticas que possam ser violentas.

“Claro que é um processo. Porém, determinamos que os acompanhantes pudessem ficar com as gestantes desde a admissão até o momento do nascimento. Após o parto, como os quartos são conjuntos, acompanhantes masculinos permanecem apenas até as 22 horas, para que todas as mulheres se sintam mais à vontade”, afirmou a médica. Rosa admite que, em princípio, houve resistência por parte da equipe médica, mas que todos estão se adaptando e que alguns profissionais foram, inclusive, substituídos.
A superintendente afirmou que em todos os casos, são oferecidos métodos alternativos para as dores das contrações e que após o nascimento é estimulada a amamentação e o vínculo entre mãe, pai e bebê. “Temos um índice de 90% de aprovação, mas é claro que existem queixas. Os casos são encaminhados da forma mais adequada”, garantiu.
O Hospital Santa Helena de São Bernardo, citado por Laura Vitória,  não retornou à reportagem até o fechamento da edição. Casos de violência obstétrica podem ser denunciados para a comissão da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pelo e-mail direitos.humanos@oabsp.org.br, para a ouvidoria da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) 0800-701-9656 ou para o Disque Saúde do Ministério da Saúde, pelo nº 136 e no site do Ministério Público Federal, www.cidadao.mpf.mp.br .

 

 

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4 Comentários

  • Elis Alberta

    Esses relatos me cortam o coração pois assim como eu só fui acordar e sair da matrix obstétrica depois de sofrer um parto violento, mesmo sabendo o que eu queria pra mim e para o meu filho, e indo para o hospital já na fase final do trabalho de parto (período expulsivo). Os vinte e seis minutos passados desde o momento da internação até o nascimento do meu bebe, não foi sem violência, pelo contrario, tive meus direitos básicos violados, sofri a ruptura artificial da bolsa depois de ter sido obrigada ficar deitada e ir deitada para a sala de atendimento, seguindo de punção venosa, manobra manual de distensão perineal,episiotomia, embora eu negasse o consentimento desses procedimentos por saber que não há evidencias cientificas que comprovem a necessidade deles em um parto fisiológico, e ainda mais por saber que meu filho já estava nascendo…
    Enfim, as praticas medicas são ultrapassadas e obsoletas quando temos médicos experientes, e no caso de médicos residentes, a total falta de competência e inabilidade de lidar com o parto.

    Falta informação para a sociedade civil, que ainda acredita e vê o médico como o deus que tudo sabe, confiando muitas vezes o ato do nascer e parir à instituição.
    Eu pude me curar dos traumas com informação e empoderamento, porque busquei grupos de apoio e porque faço da minha historia uma forma de levar informação para outras pessoas. Precisamos nos preparar e praticar a desobediência civil perante a hegemonia médica e a institucionalização de nossos corpos.
    Me coloco a disposição para lutar junto.
    Atualmente moro em Diadema e ainda continuo no ativismo e militância por respeito a mulher principalmente nos seus direitos sexuais e reprodutivos. Essas questões levantadas não se trata apenas de erros médicos, mas do domínio que o patriarcado e o machismo exerce sobre o corpo feminino.Por muito menos violações, eu decidi levar meu caso para a justiça, mesmo sabendo que não há ainda jurisprudência para ações de violência institucional na gestação, parto e puerpério; Esse tipo de violência tem sido nomeada de violência obstétrica, mas também é uma violação dos direitos das mulheres e dos direitos humanos e não é praticada apenas por profissionais da assistência.
    Acredito que uma boa alternativa, seja juntar nossos casos e levar à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Eu ainda quero levar essas questões a muitos e levar as pessoas a reflexão e ao questionamento. Se nos unirmos seremos forte e se andarmos juntos chegaremos longe.

  • Em 2012, minha esposa entrou em trabalho de parto ás 2 da manhã, então nos dirigimos ao hospital da mulher de santo andré. Após esperar o dia inteiro para eles resolverem fazer o parto, acabamos tendo uma surpresa desagradável, a estadia de 6meses do nosso filho na uti neonatal, onde foi cuidado como um rei. (parabéns à toda equipe da Neo, que só resolvem os erros dos obstetras. E fazem isso com amor).
    Vou tentar resumir um pouco essa história com um final triste.
    levei minha esposa para o hospital com contracões de 10 minutos, normal. Ela foi avaliada e internada no mesmo momento. Durante o dia inteiro, aguardou no centro de parto até conseguir a dilatação mínima para o parto. Exame de toque a cada 30 minutos, mas a dilatação vinha muito de vagar.
    Após 15horas internada, ela conseguiu atingir a dilatação de 7 cm. Pouco mas na teoria, suficiente.
    Então os obstetras começaram a fazer o parto, mas depois de dez minutos a criança não passava. Minha esposa gritava de dor, e a contraresposta que ganhou foi: “na hora de fazer não foi bom? Agora aguente. Ano que vem você vai estar aqui de novo!)
    Isso foi um desacato, a gente planejou esse filho por três anos, e só agora, depois de três anos que ele nasceu foi que resolvemos ter outro filho. A médica não estava falando com nenhuma vagabunda , e mesmo que estivesse, ela não tem o direito de ofender ninguém.
    Após 10 minutos de dificuldades para o nascimento, resolveram que tinha que ser feita uma cesariana de emergência. Uma delas saiu e voltou com o médico chefe da equipe. Ele olhou, não tocou minha esposa e falo:”essa criança vai nascer normal de qualquer jeito”. Como assim, de qualquer jeito? É. Uma vida indefesa!
    As médicas se olharam e uma soltou até algumas lágrimas por ouvir isso, mas resolveram obedecer seu chefe.
    Começou então um trabalho de parto muito difícil. A criança estava em sofrimento extremo, seus batimentos cardíacos caiam cada vez mais. A sala, que tinha apenas 2 médicas estava agora com umas 15 pessoas (obstetras; enfermeiras; pediatras e fisioterapeutas para entubar o bebê). As forças da minha esposa estavam se esgotando e ja havia se passado quase duas horas. Até eu ajudei, foi amarrado um lençol na barriga para forçar o bebê e a médica pediu para eu puxar com toda minha força.
    Depois de duas horas de intercorrencia, o coração dele já estava quase parando e ele ia entrar em óbito ainda na barriga. Minha esposa, ouvindo isso, achou força de onde nem ela sabe e empurrou. O bebê nasceu, mas nada de choro, ele estava desmaiado, foi entubado e levado de imediato para a UTI. Por quase três horas a gente ficou sem ter noticias se ele estava morto ou vivo. Somente na hora das visitas dos país que me deixaram entrar pra ver ele, na hora que vi que estava vivo, minha felicidade foi total, mas durou pouco, pois recebi uma notícia que mudaria toda minha vida.
    A neonatologista. Me disse que teria que esperar por 24hs para ver se ele iria ter convulsões ou não,
    E assim saber se ele teria alguma sequela pra carregar durante sua vida. Infelizmente, durante a madrugada ele convulsionou , e foi sedado.
    Essa Uti foi sua casa por 6 meses, onde foi tratado como filho de todos que ali trabalham (até hoje, depois de três anos as enfermeiras e médicas se emocionam ao falar dele, bebê mais que especial).
    Passado os seis meses, ele finalmente conheceu seu quarto,sua casa, seu berço, seus brinquedos, mas a gente levou para casa, uma criança especial, com sequelas irreversíveis e sem futuro ao longe. Somente o presente, pois ele poderia dormir e nunca mais acordar.
    Começou então uma batalha pelo tratamento dele, eu parei de trabalhar para ajudar a cuidar dele. Ele tinha durante a semana, consultas médicas, fisioterapia, fonoaudiologia, e muitas internações por convulsão ou problemas respiratórios. Minha casa se tornou uma uti mais equipada do que pronto atendimento, eu e minha esposa nos tornamos enfermeiros de forma forçada, e ele precisava de observação por 24hs por dia, então a gente fazia revezamento. Já cheguei a ficar até cinco dias sem dormir para cuidar dele em um momento mais grave.
    Com um ano e um mês de vida, ele foi internado por pneumonia no hospital municipal, onde acabou chegando aquele dia mais temido por nós, veio a óbito.
    Durante esse tempo, na delegacia que investiga o caso, a investigação está em andamento, e hoje tive uma notícia boa, que não trará meu filho de volta, mas vai proteger minha filha que está para nascer e muitas outras crianças e mães que ainda serão atendidas naquele hospital.
    O Laudo do médico legista saiu, e ficou provado que tudo o que a gente passou, inclusive sua morte, se deu por erro medico durante o parto. O Legista, junto com CRM, constataram que naquele momento uma cesariana resolveria o problema, e que a criança não sofreria com nenhum tipo de sequelas.
    Assim sendo, o delegado de polícia está apenas aguardando um último prontuário para confrontar com o primeiro, e depois chamar a médica responsável para depoimento, onde vai ouvir voz de prisão no mesmo local e perder o direito de exercer medicina por negligência médica seguida de lesão corporal e neurologica e óbito.
    Infelizmente, a investigação mostrou que ela foi responsável pelo erro, mas ela só foi infeliz de acatar ordem de um médico que nem merece o título de Dr. Mas se ela quiser se livrar agora, vai ter que denunciar o seu chefe que foi o verdadeiro culpado.
    Espero que através dessa experiência, cada profissional pare de cometer erros e entendam que estão lidando com vidas. Infelizmente tivemos que perder um bebê para isso acontecer, mas se pela morte dele, a vida de muitos puderem ser salvas, vou ficar mais tranquilo e dizer que sua morte não foi em vão, pois serviu de benefício para muitos que ainda vão chegar.
    não comentei nomes aqui porque a investigação não terminou ainda, então esses médicos, se souberam da conclusão policial, podem tentar fugir antes.
    então falo, denuncie, sua denuncia pode trazer paz para o próximo. A justiça pode até demorar, mas será feita.

  • Bruna Iara da Silva

    Este tipo de violência a gestante continua, este ano 2014 minha filha sofreu 3 dias dentro deste hospital,foi humilhada e maltratada por residentes e sofreu preconceito por uma Senhora que se diz medica Dra Ilva que apos 3 dias sem nenhuma dilatação só recebendo medicação para ter contra ação não quis realizar uma cezaria alegando que este procedimento só é feito quando a criança entra em sofrimento, disse também que minha filha não poderia ter engravidado pois ela estava muito gorda.Que tipo de médico e esta, preconceituosa, o gordo também tem direitos, fora que no minimo esta médica não deve ter espelho na sua casa, pois em questão de obesidade ela não fica atras. Outra que deixa a desejar são estas residentes que não tem noção de que estão cuidando de um ser humano, depositamos confiança no médico e o mesmo não tem firmeza no que faz, as 22hs do dia 07.03 apos exame minha filha apresentou 4 cm de dilatação por volta das 3 horas do dia 08.03.14 duas residentes que não tinha nenhuma identificação que depois descobri o nome das duas Camila e Renata levou minha filha para sala de exames uma fez 3 exame de toc dizia que achava que ela esta de 2 para 3 cm, pediu para a outra confirmar, depois as duas falava que meu dedo e maior que o seu, que absurdo este tipo de exame já é incomodo em questão de 5 minutos estas duas realizou 5 vezes este exame, quando gritei e pedi para chamar o médico, uma delas batia no peito dizendo que era médica, respondi então que ela deveria voltar a estudas, primeiro uma médica tem que ter firmeza no que faz, dizer que acha para um paciente e passar
    insegurança, segundo a falta de atenção, como pode um dia antes ela está com 4 cm de dilatação e as 3 horas do dia seguinte a residente dizer que está de 2 para 3 cm, como confiar neste tipo de residente, fora que a falta de respeito em relação a este procedimento ter sido feito 5 vezes em seguida, ainda uma outro que se diz médico do plantão Dr Anderson disse que ali é um hospital escola e que vai ser feito quantas vezes ele quiser. Respondi a ele que este procedimento ele então faria na filha dele, sei que este exame e necessário, porém não absurdamente como aconteceu e com pessoas que não mostra capacidade para isto.
    Apesar de denunciar no CRM, e na ouvidoria do hospital, recebi uma resposta que este tipo de sindicância demora, já faz 5 meses do ocorrido e nada de resposta. O hospital alega que todos os que estavam de plantão nesta data precisa fazer relatório do ocorrido. Veja bem 5 meses e ainda não se apresentou este relatório, como se adiantasse este relatório pois estes envolvidos nunca vão admitir que chamou a paciente de gorda, e outras coisas mais. O povo acha que eu acredito em Papai noel.como já sei que vão pedir testemunha eu pergunto o hospital só autoriza um acompanhante,da família, então já sei o final desta historia o relatório do médico tem valor e a palavra do acompanhante e paciente não tem valor. O pior de tudo que todos estes envolvidos continuam atendendo no hospital.
    Está na hora de todos juntos se unir e não deixar este tipo de profissional continue fazendo descaso do paciente, que tipo de parto humanizado é este aonde a criança precisa entrar em sofrimento para ser realizado uma cesária.O jeito é entrarmos com processo contra cada um deles e contra o hospital por aceitar este tipo de profissional, penso que se o hospital ainda deixa estas pessoas atender ela concorda então com estas atitudes, pois nenhuma providencia foi realizada até o momento.
    Vamos unir todas que passou por este tipo de humilhação e fazer um processo coletivo por
    discriminação, e maus tratos.

  • Jucileide Silva

    Eu sofri violência neste hospital e maternidade Santa Helena. Ele deveria ser fechado. Os profissionais que lá atuam estão sempre de má vontade. Péssimo atendimento. Um descaso com o ser humano lá é demais. Sofri um aborto e fui tratada como um inseto por eles. Como se eu fosse a pior pessoa do mundo por estar tomando o tempo deles que estavam ocupados com “outras coisas”. Peguei trauma desse hospital! Estou grávida novamente, mas lá meu filho não nasce!

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