Golpe de 1964 completa 50 anos | Diário Regional

Golpe de 1964 completa 50 anos

30/03/2014 8:59
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José Contreras Castilho foi detido pelo Dops; na foto, segura bomba jogada pela polícia que guarda como recordação. Foto: Eberly Laurindo especial para o DR“O ABC tinha cheiro de gás lacrimogêneo”, relata o músico Mao, ex-vocalista do grupo Garotos Podres, em depoimento ao documentário Botinada – A História do Punk no Brasil. O músico se refere ao começo da década de 1980, época em que as greves sindicais eram cada vez mais comuns na região, mas sempre reprimidas por forças armadas.

O aparato repressor foi forjado alguns anos antes, em 31 de março de 1964, quando o presidente João Goulart foi deposto do cargo para o qual havia sido democraticamente eleito, apenas sete meses depois de assumir o governo em 1961. Jango foi expulso do país pelos militares e o Brasil demorou mais 21 anos até escolher seus representantes políticos de forma direta novamente.

Enquanto isso, fervilhavam os grupos de resistência ao regime e de críticas sociais. No ABC, a maioria tinha ligação com igrejas e, principalmente, sindicatos, ao passo que as universidades, tradicionais celeiros de críticos ao regime militar, engatinhavam.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema sofreu quatro intervenções ao longo do regime – em 1964, 1979, 1980 e 1983. Algumas resultaram em dissolução da diretoria por determinação do Ministério do Trabalho. Então diretor da entidade, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva bradou no Estádio Primeiro de Maio, em 1979, “andaram falando que se voltássemos a greve, iriam colocar canhões em São Bernardo. Para enfrentar os tanques que serão colocados em São Bernardo, cada um dos trabalhadores deverá colocar como arma sua esposa e filhos nas ruas”, conforme mostra o documentário ABC da Greve.

Com os trabalhadores de braços cruzados, as empresas muitas vezes não pagavam salários, ou depositavam com descontos. O modo que os militantes encontraram para viabilizar as paralisações foi a criação de fundo de greve, uma espécie de banco de alimentos para os operários.

Sindicato

O aposentado e ex-funcionário da Villares José Contreras Castilho foi um dos que usufruíram essa ajuda dos companheiros, já que alega ter sido dispensado da empresa um mês após ser detido por policias do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Contreras militava na Ação Católica Operária e foi abordado pelos agentes após discursou em uma assembleia do sindicato dos metalúrgicos em 1977.
Com 39 anos e casado, os homens que representavam o Estado teriam dito que o filho do metalúrgico ficaria órfão. “Na hora fiquei amedrontado, mas não valia a pena revidar”, contou. Um mês depois foi dispensado da Villares, só conseguindo emprego dois anos depois na TRW.

O ex-metalúrgico é citado no vídeo documental Peões, de Eduardo Coutinho, que contém uma série de histórias de anônimos que cruzaram os braços para exigir melhores salários e condições de trabalho. “Este é o Contreras”, diz um dos entrevistados ao apontar a uma foto no estádio em que ocorriam as reuniões. Entre recortes de jornais, o metrologista guarda uma bomba jogada pela polícia como recordação da época.
Personagem da resistência ligado a Igreja Católica, o padre José Mahon, hoje alocado na Igreja Nossa Senhora do Rosário, na Vila Luzita, em Santo André, foi preso sete vezes, acusado de ajudar grevistas nos anos 1980. À época, congregava na Igreja São Geraldo Magella, no Centreville, e lidava diretamente com o movimento da Juventude Operária Cristã (JOC).

“O período antidemocrático causou atrasos em movimentos de modernização do país, em especial, ao anular as reformas de base defendidas por Jango, como a urbana e a agrária”, destacou o economista e sociólogo Bruno Daniel Filho, em recente entrevista ao Diário Regional.

“Tivemos uma disputa ideológica de mundo e ficamos 20 anos sobre uma ditadura sem que as ideias consideradas progressistas pudessem ser ao menos debatidas”, criticou. Militante no PSol de Santo André, o professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo também comentou que a sucessão de governos liberais com a abertura democrática também pode ter feito mal ao Brasil, já que houve poucos avanços aos temas propostos na Constituição de 1988.

As questões sociais e avanço da desigualdade também estão presentes na crítica de Hirzman. “O total de favelas do ABC (em 1964) era seis. Hoje temos 155 e, principalmente, desde 1968, quando a situação apertou mais ainda, as grande favelas estão localizadas aos arredores das indústrias metalúrgicas”, narrou o poeta Ferreira Gullar para o filme.

Repúdio

As entidades da região que organizam atos de repúdio ao regime e ao golpe militar são justamente os sindicatos e algumas universidades. A Prefeitura de Santo André vai organizar debate entre o historiador Fernando Morais e o diretor de teatro José Celso Martinez Correa às 20h no Teatro Municipal. Já a Universidade Metodista de São Paulo fará um seminário amanhã (31) às 9h no auditório Sigma com o tema “Comunicação e democracia no Brasil: 50 anos do Golpe de 64”. A Fundação Santo André (FSA) promoveu ciclo de palestras durante a última semana chamado de “31 de março: 50 anos do golpe empresarial-militar”, com apoio da comunidade acadêmica e movimentos sociais.

 

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2 Comentários

  • Camilla F.

    Palmeirense, este senhor da foto realmente não é punk. Ele é um ex-funcionário da Villares e foi detido depois de uma assembleia do Sindicato, conforme consta no sexto paragráfo.

  • Palmeirense RP

    Este senhor não é punk,não me lembro dele na banda Garotos Podres!

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