Mais da metade das vítimas de estupro tem menos de 13 anos | Diário Regional

Mais da metade das vítimas de estupro tem menos de 13 anos

28/03/2014 10:59
Print Friendly, PDF & Email

Mais da metade das vítimas de estupro em 2011 tinham menos de 13 anos - Foto: DivulgaçãoO Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) entrevistou em 2013 mais de 3 mil pessoas para produzir o estudo “Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) sobre o tema tolerância social à violência contra as mulheres”. O resultado mostra que 65% das pessoas concordam parcial ou completamente com a frase: mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas. Além disso, 58,5% concordam parcial ou completamente com a afirmação: se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros. Os dados foram divulgados ontem (27).

Segundo a pesquisa, “por trás das afirmações, está a noção de que os homens não conseguem controlar seus apetites sexuais. Então, as mulheres, que os provocam, é que deveriam saber se comportar (e se vestir), e não os estupradores. A violência parece surgir, aqui, também, como uma correção. A mulher merece e deve ser estuprada para aprender a se comportar. O acesso dos homens ao corpo das mulheres é livre se elas não impuserem barreiras, como se comportar e se vestir ‘adequadamente’”.

De acordo com o estudo, residentes nas regiões Sul e Sudeste, jovens e pessoas com educação média e superior apresentam menores chances de concordar com as afirmações citadas. Pessoas católicas ou evangélicas têm chance 1,5 e 1,4 vez maior , respectivamente, de concordar total ou parcialmente com a afirmação.

Análise dos casos

O IPEA também divulgou estudo inédito sobre os casos de estupro no Brasil ocorridos em 2011. A pesquisa é o primeiro estudo quantitativo nacional que trata desta temática. A partir de dados do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan), foram analisados todos os registros deste crime no país. O intuito é compreender mais detalhadamente o fenômeno, para contribuir de forma efetiva nas políticas públicas orientadas para a superação desse grave problema social.

Segundo os dados, foram notificados no Sinan 12.087 casos de estupro no Brasil, o que equivale a cerca de 23% do total registrado na polícia em 2012, conforme dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) de 2013. A pesquisa destaca que os números podem não corresponder à realidade, já que por diversos motivos, pode haver muita subnotificação dos casos.

Em relação ao total das notificações ocorridas em 2011, 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, mais da metade tinha menos de 13 anos de idade, 46% não possuía o ensino fundamental completo (entre as vítimas com escolaridade conhecida, esse índice sobe para 67%), 51% dos indivíduos eram de cor preta ou parda e apenas 12% eram ou haviam sido casados anteriormente.

‘Pesquisa é retrato fiel da sociedade machista, patriarcal e retrógrada‘

A pesquisa “Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) sobre o tema tolerância social à violência contra as mulheres” divulgada ontem (27) pelo IPEA revelou que 65% dos brasileiros acham que mulheres que usam roupas mostrando o corpo merecem ser atacadas (sexualmente) e que 58,5% acreditam que se as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros. Para a coordenadora do Grupo de Trabalho (GT) Gênero do Consórcio Intermunicipal do ABC, Maria Cristina Pechtol, os dados traçam retrato fiel da nossa sociedade, que é machista, patriarcal e retrógrada.

“Temos muito para trabalhar. A pesquisa mostra que as mulheres são as culpadas pelos estupros. Quem concorda (com as afirmações) não pensou em nenhum momento na responsabilidade do agressor. Alguém já ouviu relatos de homens que foram atacados porque estavam sem camisa ou de shorts? Esses dados mostram em que estágio está a sociedade brasileira.”

Maria Cristina destacou importância de se trabalhar fortemente a desconstrução de ideias machistas, com campanhas que estimulem a mudança de cultura e, principalmente, ações educacionais, desde as séries iniciais. “Essa mudança só será possível por meio da educação e quanto antes começar, melhor”, concluiu.



Comente esta matéria


Atenção! O comentário aqui postado é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do Diário Regional. Comentários discriminatórios ( contra raça, sexualidade, cor, crença e outros) , que violem a lei, a moral e os bons costumes poderão ser denunciados pelos internautas , removidos ou não publicados pela redação.
%d blogueiros gostam disto: