Entre moradores de rua de S.Bernardo, apenas 13% são usuários de crack | Diário Regional

Entre moradores de rua de S.Bernardo, apenas 13% são usuários de crack

22/03/2014 13:53
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Segundo levantamento da prefeitura, dependentes de bebidas alcoólicas somam 63% entre os desabrigados - Foto: ArquivoLevantamento realizado em 2013 pela Prefeitura de São Bernardo identificou que das cerca de 350 pessoas em situação de rua que vivem na cidade (sem contar uma população flutuante que chega a 20% deste total), apenas 13% são dependentes de crack. “Diferente do que dita o senso comum, nem todas as pessoas que estão vivendo nas ruas são usuárias de drogas, em específico o crack, que vem sendo mais fortemente combatido”, destacou a secretária de Desenvolvimento Social e Cidadania, Márcia Barral, durante o seminário Cidadão em Situação de Rua: Mitos e Desafios, promovido ontem (21) no Teatro Cacilda Becker.

A maior parte, 40%, apresenta dependência de álcool. Entre a população que não vive na rua, mas que permanece desabrigada por alguns períodos – especialmente para o consumo de drogas – a maior incidência também é de dependentes de bebidas alcoólicas: 63% contra 13% dependentes de crack. Dentre a população de rua, 22% não possuem vícios. “Esse debate é importante para processo de aperfeiçoamento dos serviços. Entender a quantidade de pessoas que estão hoje nas ruas e quantas destas estão nessa situação por problemas pontuais, pode ajudar a evitar a consolidação dessa situação”, destacou o prefeito Luiz Marinho.

Legalização

O chefe do Executivo afirmou, também, que os dados podem lançar luz sobre outras questões, como a legalização da comercialização de algumas drogas. “Existe essa ideia de que o crack é uma grande epidemia, mas na verdade não é. Precisa ser cuidado, mas existem problemas mais enraizados, como o álcool, e talvez isso ajude na discussão de liberar ou não o uso de algumas substâncias, porque o álcool é permitido e até incentivado com propagandas”, pontuou.

O levantamento foi feito com base nos atendimentos intersecretariais – que envolvem as pastas de Assistência Social, Segurança Urbana, Saúde e Desenvolvimento Social e Cidadania – durante todo o ano de 2013, mas desde 2009 a cidade conta com políticas públicas para essa população. “Não começamos agora, mas neste momento, dispomos de instrumentos mais afinados tanto para o atendimento quanto para o diagnóstico”, completou Marinho.

Os números também demonstram que, na maioria dos casos, conflitos familiares são os principais motivos para que as pessoas saiam de casa e passem a viver nas ruas. O Coordenador Nacional de Saúde Mental Roberto Tykanori, que também participou do evento, destacou que são os problemas da família que levam as pessoas para as ruas, e não o crack. Tykanori citou o programa “Braços Abertos”, que ofereceu abrigo, emprego e salário para moradores de rua da região central. “É preciso oferecer oportunidades que estejam ao alcance dessas pessoas. Relativizar oportunidades com exigências”, concluiu.

Morador da Pauliceia saiu das ruas e deu a volta por cima

Marcos de Oliveira Túlio é um dos integrantes da frente de trabalho da Prefeitura de São Bernardo. Seria apenas mais um, entre tantos, não fosse por um detalhe: entre 2010 e 2014, passou diversos períodos na rua. Egresso do sistema penitenciário, entrou em conflito com uma tia e saiu de casa. Graças aos atendimentos recebidos pelas equipes da prefeitura, Túlio hoje não é mais um desempregado.

“Hoje tenho meu lugar, meu espaço. O que posso dizer para quem passa pelo que estou passando é não desistir. Tenha um plano, colocar primeiro um alicerce e depois seguir em frente”, afirmou.

Para o Coordenador do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, Anderson Lopes Miranda, falta mais vontade política para enfrentar a questão. “Os vereadores precisam aprovar verbas do orçamento para esta área. Políticas públicas precisam de recurso, nada é feito por caridade.”

Miranda passou 22 anos morando nas ruas, e hoje é um dos principais articuladores dessa população. “Somos cidadãos de direito. Queremos dignidade. Não adianta ter um restaurante por R$ 1, se quando chegamos sujos, descalços, cheirando mal, as pessoas nos olham com nojo. Existe uma lei de assistência à população de rua e precisamos cobrar mais efetividade na sua execução”, declarou, se referindo ao decreto 7053, de 2009.



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