Especial Dia da Mulher – Travestis e transexuais são mulheres e exigem respeito | Diário Regional

Especial Dia da Mulher – Travestis e transexuais são mulheres e exigem respeito

08/03/2014 8:56
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Daniely, Letícia e Samara são as fundadoras da ONG Atravessa - Foto: Eberly Laurindo especial para o DRDaniely Souza, Samara de Macedo e Letícia Souza Silva são amigas que se uniram para criar uma organização não governamental (leia mais no box “ONG Atravessa pretende lutar pelos direitos de travestis e transexuais”). Além de exercerem a mesma profissão – todas são garotas de programa – as três têm outra característica em comum: são transexuais. Desde cedo, ainda na infância, não se identificavam com o corpo masculino com o qual nasceram e cada uma, a seu tempo, assumiu sua identidade feminina e passou a viver como mulher.

Mulheres Sim, senhor!

A mudança não foi simples, nem pacífica. A violência, companheira constante de todos aqueles que fogem de algum dos muitos padrões da sociedade, começou dentro de casa. “Aos 14 anos levei uma surra do meu irmão mais velho, sem nenhum motivo, apenas porque era feminina. Tomava hormônios desde os 11 anos, mas sempre escondida, porque apesar de saber o que eu queria, tinha medo de me expor”, lembrou Daniely, de 24 anos e moradora de Santo André.

Porém, a violência foi como um combustível para a sua coragem. “Achei que as pessoas da minha família me apoiariam, mas foram as primeiras a jogar pedras. Isso me deu mais força para que assumisse quem eu era e, desde então, passei a me vestir como mulher”, completou.

A história de Samara, moradora de Mauá, não é diferente. Aos 14 anos, a mãe descobriu que ela namorava com um rapaz da pequena Várzea Alegre, no Ceará. Além de apanhar, foi expulsa de casa. “Logo depois disso vim para São Paulo e passei a me prostituir”, afirmou.

Tendo se assumido como mulher mais tarde, apenas aos 22 anos, Letícia – moradora de Santo André – enfrentou menos resistência por parte dos familiares. “Todos já desconfiavam, mas como já morava sozinho, tinha minha independência. Foi tudo mais tranquilo”, declarou. Samara e Letícia começaram, recentemente, acompanhamento médico para hormonioterapia e possível cirurgia de mudança de sexo. As três estão, atualmente, no processo de obtenção de novos documentos, com o nome social que adotaram.

A expectativa da cirurgia é grande para as três, que vêm essa mudança como a definitiva para se sentirem mulheres. “Isso muda muita coisa, para a gente e para o nosso companheiro”, explicou Letícia. “Tudo o que fazemos, todas as plásticas, a hormonioterapia, fazem parte da nossa busca por ter um corpo adequado com o que somos, com a nossa busca por sermos mulheres”, completou Samara.

Apesar do senso comum de que toda travesti ou transexual vai atuar profissionalmente apenas como cabeleireira ou profissional do sexo, Samara rema na contramão e está no segundo ano da faculdade de Letras, além de já ter se formado como auxiliar de enfermagem. “O preconceito é muito grande no mercado de trabalho. Talvez, se fôssemos homens gays, seria diferente. Porém, somos mulheres e a sociedade tem dificuldade em aceitar isso”, pontuou. Para quem está se descobrindo agora, as garotas têm um recado: “Viva sua vida e seja feliz, não importa o resto.”

ONG Atravessa pretende lutar pelos direitos de travestis e transexuais

A Associação dos Travestis de Santo André (Atravessa) é uma organização não governamental que ainda não foi oficializada, mas que já tem os trabalhos em andamento. Fundada pelas transexuais Daniely Souza, Samara de Macedo e Letícia Souza Silva, a ONG tem como objetivo lutar pelos direitos e travestis e transexuais.

A ideia da criação da ONG surgiu no ano passado, quando uma travesti alegou ter sido agredida por um policial e as três passaram a acompanhá-la ao fórum e também na prefeitura. A denúncia não foi levada adiante, mas a mobilização indicou que havia um caminho a seguir. “O papel da ONG é lutar pelos nossos direitos, contra o preconceito, ajudar as travestis que moram embaixo de viadutos”, explicou Letícia.

“Muitas acabam não segurando a onda. Vêm de outras cidades e não conseguem dinheiro, se envolvem com drogas. Tivemos casos de amigas que acabaram morrendo com doenças. É isso que a gente quer tentar amenizar”, completou Daniely.

Para Samara, a ONG vai ser como um porto seguro, um lugar onde as travestis e transexuais possam se sentir seguras, contar o que vem passando com elas nas ruas, fazer denúncias e receber diferentes tipos de atendimento. “Inclusive, já temos uma parceria com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Santo André para dar encaminhamento ao processo de alteração dos documentos, para substituição do nome de registro pelo nome social”, concluiu.

A ONG Atravessa tem o apoio da Assessoria de Políticas Afirmativas para a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) da Secretaria de Direitos Humanos e Cultura de Paz de Santo André. O contato pode ser feito através do e-mail ongatravessa@gmail.com.

Falta de representatividade aumenta invisibilidade de travestis e transexuais

Jared Leto ganhou Oscar por interpretar um travesti no filme “Clube de Compra Dalas”; segmento queria uma atriz transex - Foto: DivulgaçãoO Oscar, maior premiação do cinema mundial, escolheu na última semana como melhor ator coadjuvante o americano Jared Leto, que interpretou uma travesti no filme “Clube de Compra Dalas”. Quem pensa que essa parcela da população se sentiu representada na tela, se enganou. “Por que não convidar uma atriz travesti ou transexual para o papel? Seria uma a menos na prostituição, uma a menos a sofrer violência”, justificou a transexual Samara Macedo, ativista da Associação dos Travestis de Santo André (Atravessa).

Em 2001, a atriz Cláudia Raia interpretou a transexual Ramona, na novela global As Filhas da Mãe. Em 2013, a autora Glória Perez escalou para a novela Salve Jorge, também da Rede Globo, três profissionais transex, que interpretaram mulheres traficadas para exploração sexual. Patricia Araujo, Maria Clara Spinelli e Mariana Molina ocuparam um lugar que até então tinha sido quase inalcançável. “Para quem é travesti ou transexual é muito importante se ver representada”, completou Daniely Souza, também ativista da ONG Atravessa.

Trabalhar apenas como cabeleireira ou prostituta não deve ser o destino de travestis e transexuais. Recentemente, a delegada transexual Laura de Castro Teixeira assumiu a Delegacia das Mulheres em Goiânia. Em Curitiba, a transexual Laysa Machado é diretora-adjunta de uma escola estadual. “É um começo, mas ainda falta muito. A conscientização da sociedade em primeiro lugar e, depois disso, investir nas escolas, em outros segmentos, para que as pessoas entendam que isso existe no mundo inteiro”, concluiu Samara.

S.André realiza esforço para inclusão profissional da população LGBT

A assessora de Políticas Afirmativas para a população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) da Secretaria de Direitos Humanos e Cultura de Paz de Santo André, Eliadi Dias, é uma mulher que fez uma opção: focar as políticas públicas para a população de maior vulnerabilidade. “São os travestis e as transexuais. São as que têm maior dificuldade em conseguir emprego e, justamente por isso, tantas estão na prostituição”, afirmou, durante entrevista ao Diário Regional na sede da prefeitura.

Como esforço para desfazer essa situação, a pasta fez parceria com o Centro Público de Trabalho e Renda (CPTR), com empresas da região e até com a própria prefeitura, no sentido de incluir profissionalmente essas pessoas. “Para facilitar, estamos até dispensando a apresentação obrigatória do RG, porque muitas perderam, ou está nas mãos da cafetina. Tudo para que esse não seja mais um impedimento”, explicou.

Outra parceria, com a Secretaria de Inclusão, consiste em visitas aos pontos de prostituição da avenida Industrial, para falar com as travestis e transexuais sobre os cursos técnicos no governo federal (Pronatec) e oficinas da economia solidária, onde poderão desenvolver aptidões e, futuramente, ser encaminhadas para o mercado de trabalho.

“Fomos até elas porque normalmente o trajeto contrário, da procura pelos serviços, não é feito por medo do preconceito, pela falta de uma documentação com nome feminino e tantos outros fatores. A ideia é começar a fazer um trabalho de reinserção, mas a gente sabe que é um processo. Muitas não confiam, não acham que vai haver mudanças, que existem perspectivas. É preciso todo um trabalho de desconstrução, de afirmação, de resgate de autoestima”, concluiu.

Eliad louva a iniciativa da ONG Atravessa (leia mais no box “ONG Atravessa pretende lutar pelos direitos de travestis e transexuais”) e acredita que a presença das travestis e das transexuais junto aos órgãos públicos será revertida em políticas públicas efetivas para essa população. “Também ajuda a atrair as outras meninas. Nós vamos dizer: olha, elas começaram com a gente, e já deram esses passos. Vocês podem vir também”, finalizou. A assessoria está articulando a criação de uma identidade municipal, na qual conste o nome social, para que a identidade de gênero seja respeitada também em equipamentos públicos, além de oficinas com os funcionários sobre essa questão.

Articulação das prefeituras ainda é tímida

A iniciativa de Santo André de fazer uma busca ativa para incluir profissionalmente travestis e transexuais é ação quase que isolada no ABC (leia mais no box “Santo André realiza esforço para inclusão profissional da população LGBT”). Nas outras cidades, as ações ainda são tímidas, como reuniões mensais e oficinas com funcionários públicos.

Em São Bernardo a temática faz parte das discussões da questão de gênero e tem sido abordada com os servidores municipais nas diferentes secretarias por meio de um processo de capacitação relacionado ao direito e ao respeito à diversidade. Também faz parte dessas capacitações reflexões sobre o uso do nome social como um direito. Com a sociedade civil temos apoiado as iniciativas de discussão e ações sobre a temática.

Diadema desenvolve com o público de travestis e transexuais ações, cujo objetivo é promover a inserção social, disseminar o conhecimento sobre as formas de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis (DST), HIV e AIDS e promover o combate à violência e à discriminação.

O coordenador do Centro de Referência (CR) em DST/AIDS e Hepatites Virais (rua Oriente Monti, 28, Centro. Telefone 4053-5300) Alexandre Yamaçake, alerta que “como são vítimas de violência e possuem dificuldade de acesso a serviços públicos, como saúde e educação, as travestis e transe­xuais tornam-se mais vulneráveis à infecção pelo HIV. Na vida real, não são ouvidas, nem vistas”.

Em Mauá, o Centro Público de Trabalho e Renda (CPTR) possui um projeto chamado Café com RH, que reúne gestores de recursos humanos das empresas parceiras para oferecer os serviços do posto e abordar algum tema por meio de palestra. No encontro de abril o tema é a participação de homossexuais no mercado de trabalho. Quem vai ministrar a palestra é o Grupo de Apoio à Diversidade (CAD).

A Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social de Ribeirão Pires informou que trabalha o atendimento ao público LGBT realizando o encaminhamento inclusivo, onde todos são tratados com igualdade para vagas de emprego e cursos profissionalizantes. Houve também oficina com servidores públicos sobre direitos e integração social, como casamento homoafetivo e nomenclatura social. São Caetano e Rio Grande da Serra não responderam.

‘Trans não são outra categoria de gays e lésbicas’, diz ativista

“Não tratem as pessoas trans como se fossem outra categoria de gays ou lésbicas. O T está na sigla LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) por conta da identidade de gênero, e não orientação sexual. A identidade de gênero diz respeito ao gênero que reconheço como meu, ao passo que a orientação sexual diz respeito ao gênero pelo qual me atraio. De forma que, uma pessoa travesti ou transexual pode ter qualquer orientação sexual, ser hétero, homo, bi ou não se atrair por ninguém e ser assexual.” A afirmação é da analista de sistemas Daniela Andrade, transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Osasco, diretora do Fórum Paulista da Juventude LGBT e membro do Coletivo Feminismo sem Demagogia e do Coletivo Junt@s! LGBT.

Daniela é ativista na defesa dos direitos da população trans e suas postagens em redes sociais são muito comentadas pelo mais de mil seguidores. Com formação na área de análises de sistemas e letras, a ativista defende que travestis e transexuais invistam nos estudos como forma de driblar as dificuldades. “Pensem em estudar e prestar concurso público. A vida de uma pessoa travesti ou transexual não é fácil. Há um imensurável preconceito no mercado de trabalho, que relega a nós, geralmente, o desemprego, subempregos e a prostituição. Portanto, é preciso pensar em uma alternativa para poder se sustentar financeiramente e que só se pode ser demitido com direito à ampla defesa”, afirmou.

Em suas postagens, Daniela fala muito em transfobia, o preconceito contra transexuais e travestis e afirma que dentro do próprio movimento LGBT, a sigla T sofre discriminação. “Como ocorre em toda sociedade, dentro dos grupos também há machismo e misoginia; há negação às identidades que fogem ao conceito do que vem a ser homem ou mulher. Como as pessoas trans geralmente não possuem poder socioeconômico, suas vozes são secundarizadas. Não pertence a nós o chamado “pink money”, esse em sua maioria no bolso dos homens gays”, justificou.

Estado oferece acompanhamento gratuito em ambulatório especializado

O Estado de São Paulo mantém o primeiro ambulatório para travestis e transexuais do país. Inaugurado em junho de 2009, o equipamento atende pacientes de todo o país – atualmente são cerca de 2 mil pessoas em acompanhamento médico, social e psicológico – que querem mudar de sexo ou apenas se adequar fisicamente ao gênero com o qual se identificam.

Após acompanhamento de no mínimo dois anos, os transexuais podem ser encaminhados para a cirurgia de mudança de sexo, feita pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Hospital das Clínicas. “Menos de 1% das transexuais femininas desistem da cirurgia. O desejo da grande maioria é mesmo operar a genitália”, explicou a diretora do Núcleo de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), do Centro de Referência e Treinamento – AIDS (CRT) e Ambulatório de Travestis e Transexuais do Estado de São Paulo Angela Maria Peres.

Angela explica que o tratamento com hormônios sempre é feito pelas transexuais, mesmo no caso daquelas decidem, durante o acompanhamento, não fazer a cirurgia de mudança de sexo. “Sentem mulheres, independentemente da genitália”, declarou. Do ponto de vista da saúde, hoje o principal problema que chega ao ambulatório são os pacientes que utilizam próteses de silicone industrial. “É um material que se dissolve e é absorvido pelo organismo, nem sempre é possível a cirurgia de remoção”, declarou a diretora. Para todos os outros tratamentos, o ambulatório oferece atendimento com equipe multidisciplinar.

No ambulatório, e em todos os equipamentos de saúde do governo do Estado, já é possível que as travestis e transexuais sejam tratadas pelo nome social. “A mudança de nome nos documentos é muito burocrática. Aqui no ambulatório, uma parceria com a ONG SOS Cidadania tem agilizado esse trâmite, mas para a maioria ainda é muito complicado”, completou a diretora.

Um projeto de lei de autoria do deputado federal Jean Wyllys, batizado de Lei João Nery, tramita no congresso e pretende, entre outras coisas, simplificar esse processo. O Ambulatório de Travestis e Transexuais funciona na rua Santa Cruz, nº 81, Vila Mariana, São Paulo. Telefone 5087-9833.

 

 



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